sábado, 2 de dezembro de 2017

Viajando de navio









Depois de ter degustado um delicioso café da manhã no gold lobst o restaurante classe A do navio, pensei em passar na parte externa, onde também servem café, almoço, jantar o dia todo para quem quiser e levar um suvenir de lembrança do navio "a caneca da Preziosa".Bastaria tomar o café e descuidadamente levar a canequinha para o quarto e guardar na mala...Visto que tantos o fazem, pensei que não seria um desvio de bens e sim uma atitude normal de turista.
Vou eu lá encher minha bandejinha com quitutes matinais não esquecendo a famosa caneca. Até tirei uma foto antes do sumiço dela para guardar de recordação, afinal a primeira mão leve ninguém esquece...
Mal sentei à mesa,  do nada, apareceu a gentil garçonete, que nos serve no restaurante e jamais no vulgarmente chamado bandejão onde eu me encontrava com a caneca. Quando olhou a canequinha com café e leite, não pensou duas vezes, sem expressar qualquer dúvida, segurou-a pela alça e já andando disse: "Você não precisa tomar essa porcaria,seu bilhete lhe dá o direito de Cappuccino com chantili"...E sem que eu pudesse pensar em algo,vi minha canequinha indo para o balcão e sendo trocada por uma super comum branca cheia de cappuccino que eu desgosto muito.
O pior é que ela voltou toda realizada com o pequeno trote na mão e disse:"Desculpe, seu cartão não te dá direito ao cappuccino, mas cliente especial merece um agrado"e  me entregou tudo aquilo como um presente.
Fiquei olhando para aquela cena e pensando onde foi que eu errei...Ainda para não desagradar a princesa, engoli tudo aquilo que parecia não ter fim, sorri e agradeci a gentileza.
No dia seguinte não tinha nenhuma caneca da Preziosa, somente brancas.....Saí como entrei.Lembrança mesmo, só essa da foto.



sexta-feira, 27 de outubro de 2017

Pausa para um café








Já vai?
Ainda é cedo. Fica mais um pouco.
Vou passar um café e poderemos prosear mais um tantinho.
Conta das suas histórias, suas alegrias suas dores.
Pode também falar dos seus amores...
Mas fica vai? Só mais uns minutinhos.
Fica pra eu matar a saudade, abafar essa expiação, enganar esse estupor que afoga em mim a vontade de seguir.
Não precisa permanecer, só até o café acabar...
E esse cheiro de saudade se esvair no ar.
Fica para  eu degustar esse sabor amargo mesmo adoçado,de não ter mais você perto de mim.


segunda-feira, 18 de setembro de 2017

MULHERES: Madalena








Maquiar-se, usar saltos e sair toda enfeitada era mais do que um desejo, era uma necessidade de mostrar seu lado feminino.
Quando cruzava com o mulheril e proseavam, os assuntos em pauta eram sobre filhos, maridos e serviços domésticos.
Madalena queria muito mais do que isso, aliás, esses  assuntos eram os menos interessantes para ela, que tinha uma vontade extrema de se produzir.
Numa de suas andanças pela cidade, deparou com um som maravilhoso que saía de uma grande porta de uma construção.
Lá dentro, uma multidão dançava com tanto entusiasmo que cedeu a sua curiosidade e sorrateiramente foi pisando firme na sala de dança.
Logo ao tocar o centro da área musical, foi puxada pela mão de um cavalheiro que a trouxe para o meio da pista e com as mãos em sua cintura,a  foi  levando para mais perto da banda que tocava bem alto.
Surpreendida, seguiu os passos do condutor e ficou impressionada com sua fluidez.
Eram passos pra lá, passos pra cá, rodopios e braços que se trançavam.
Foi num final de semana quando ela,toda colorida, maquiada e de saltos bem alto, com um sorriso fascinante, embrenhando-se pelo salão, teve a certeza absoluta de ter encontrado seu lugar.
Madalena, nunca mais foi a mesma.






quarta-feira, 6 de setembro de 2017

MULHERES: Marcia












Seu coração estava fragmentado.
Acreditando que tudo seria para sempre, vestiu seu pesadelo, ajustou-o no seu corpo como uma mortalha e enfrentou o dia  com o mais puro desinteresse plausível.
Olhou pela janela e viu todas as suas lembranças de menina voarem para longe. Suas ilusões, devaneios se desfazendo e não acreditou que tudo estava realmente acontecendo.
Os preparativos do casório tinham passado tão rápido, que não tivera tempo de avaliar sua escolha.
Não queria se casar. Pelo menos com ele.
Seu grande sonho de encontrar alguém que lhe fizesse feliz, tinha acabado e temia  ficar sozinha.
Aceitou o pedido para sair da vidinha vazia e solitária e não ponderou as consequências.
O desejo de ser abduzida nas vésperas de sua bodas não se concretizou, nem a fuga para um lugar distante.
Com seu vestido branco escorrido até os pés, um buque minguado de crisântemos nas mãos e uma pequena grinalda amassada, caminhou por aquele espaço como se fosse para um mosteiro. E tinha a mais profunda certeza que nunca mais voltaria a sorrir.







sexta-feira, 1 de setembro de 2017

MULHERES: Juliana










Juliana recebeu do seu amigo um folhetim, que continha a foto de dois jovens namorados e  uma pequena mensagem dela para ele no seu aniversário:" Nunca houve nem existirá ninguém no mundo que ame você como eu amo".
Seria lindo se aquele panfleto não fosse o anuncio da missa de um mês do próprio casal, impresso em papel.
Tinham sido atingidos por um trem um mês antes do casamento e morrido dentro do carro.
A moça  nunca mais foi a mesma. Não conseguia se desligar daquele papel fúnebre e levava-o durante todo seu dia para poder fitá-lo.
Olhava e lamentava o ocorrido.
Sofria e se colocava no lugar deles.
Chorava sem ao menos tê-los conhecidos.
Passaram os dias e ela sempre segurando e levando aquela noticia triste.
Combinou com as amigas de irem ao seu apartamento na praia por um final de semana, para aliviar a alma.
Contou a história do casal para todas as outras três e colocou a nota fúnebre de baixo do seu travesseiro.
Estavam dormindo em dois beliches. 
Juju dormia na parte superior de frente para a porta do quarto.
Num determinado momento, se viu sentada na cama e na sombra da porta aberta, entre o batente, viu o contorno em negro de um homem observando-a parado. No próximo momento, sentiu seu olhar sem ver seu rosto e a sua aproximação lenta a subir os degraus do beliche. Ajoelhou-se sobre sua cama e veio ao seu encontro engatinhando.
Juliana perguntava angustiada quem era ele e o que  queria e pedia que se afastasse. Em vão!
Quando estava prestes a ser tocada, soltou um grito de terror do fundo do seu cerne e assim ficou até que suas amigas que lhe faziam companhia ascendessem a luz do quarto e a socorressem.
A foto estava bem lá, de baixo do seu travesseiro, onde lhe pareceu que o personagem queria alcançar.   Era como se quisesse que ela parasse, deixasse-os em paz seguirem seus caminhos. 
Na manhã seguinte se despediu daquele que fora seu diário, terço, mantra por mais de um mês e rasgando-o jogou fora e fez de tudo para esquecer.
Sentiu uma paz... Voltou a sorrir.





quarta-feira, 30 de agosto de 2017

MULHERES: Luana











Tirada  da festa em que se reunia com seu amor e amigos, Luana, chorosa, voltou com seu pai para casa com a certeza de não poder persuadi-lo a deixa-la ficar.
Deitou-se para adormecer com seu corpo ainda tremulo de tristeza.
Às duas da manhã, levantou-se da cama, debruçou pela janela vestindo sua camisola e desceu até a calçada.
Podia sentir toda a umidade do amanhecer e deslizou pela calçada sem tocá-la até a esquina aonde ele e seus amigos chegavam com os instrumentos musicais para guardá-los.
Ficou ali estática pairando no ar, até que tudo fosse colocado no local certo, o carro guardado e seu amado se retirado para dentro da casa.
Observou cada rosto, o que faziam e gesticulavam.
Como quem volta de um caminhar, ela se voltou e seguiu até sua casa numa suavidade estranha, porém deliciosa de sentir.
Subiu pela janela e deitou-se.
Sentiu um arrepio que correu por todo seu corpo e levantou assustada com a sensação de ter saído realmente de si. Olhou as horas e marcou 02h20min da manhã.
Ao encontrar na tarde seguinte com seu namorado, descreveu toda a cena que havia presenciado de alguma forma.
Ficou surpresa quando ele sério confirmou todos os detalhes que ela deu, como verdadeiros, inclusive as horas.
Tentou tantas vezes outras saídas, mas foi sua primeira e única vez.


terça-feira, 29 de agosto de 2017

MULHERES: Marina









Marina ia à praia toda contente, sempre na esperança de conhecer alguém interessante que a tirasse daquela insistente solidão.
Já nos seus 19 anos, queria alguém maduro, alguém para casar.
Finalmente no seu último dia de praia,enquanto brincava de castelo na areia molhada, um jovem nos seus 25 anos apareceu e puxou uma conversa simples, apenas querendo informações sobre seu nome, do que ela gostava etc...
Surpreendeu-se com aquela figura madura e maravilhosa em sua frente e começou a falar sobre coisas que achava interessante.
Ele, depois de escutar sobre suas habilidades intelectuais sorriu e gritou um nome. Era de um adolescente de uns 14 anos, que se jogava na água como um sapo e deixava sua bermuda mostrar parte do seu traseiro enquanto a água escorria por suas pernas finas e sem pelos.
_Este é o Marquinho, meu primo que te viu e quer muito te conhecer. Agora vocês já podem conversar.
Retirou-se dali com uma rapidez despreocupada, deixando uma jovem  a  sentir-se  viúva e finalizando como uma babá.
Marina totalmente arrasada, ficou com raiva pela primeira vez de aparentar ser tão mais jovem do que sua idade real...